
A coluna percorreu o local com câmeras escondidas e encontrou um mercado clandestino estruturado, onde o remédio, que exige prescrição médica e monitoramento, é oferecido abertamente por comerciantes sem qualquer vínculo com a área da saúde.
Não há anúncios, cartazes nem vitrines. A venda acontece no boca a boca, sustentada por indicações e pela confiança no improviso. Ao perguntar por “Mounjaro”, a reportagem foi prontamente atendida. “Quem traz é o meu cunhado. Ele que importa”, contou uma das vendedoras, com naturalidade. “É o mesmo fornecedor dos iPhones”, completou.
Nenhuma pergunta foi feita sobre histórico médico, idade, diagnóstico de diabetes ou acompanhamento profissional. A transação é direta: o preço varia entre R$ 3.500 e R$ 4.000 por caneta de 15 mg, e o pagamento é feito por Pix. “Se levar mais de uma, eu faço mais barato. Mando o kit completo, com as agulhas de brinde”, disse a vendedora.
Aplicação ensinada na banca
Além de comercializar o remédio, os vendedores explicam como aplicá-lo. “Dói nada. É só girar o clique para dar a dosagem e aplicar na barriga, no braço ou na perna”, orienta a vendedora.
A demonstração é feita com gestos e ajuda de vídeos de redes sociais, como se explicasse o funcionamento de um cosmético. Nenhum alerta sobre efeitos colaterais, riscos de hipoglicemia ou necessidade de supervisão médica é mencionado.
Em algumas bancas, o produto é tratado como um artigo premium. “Tem que manter dentro da geladeira, tá?”, reforça um comerciante, que também vende celulares e relógios. Ele afirma que o Mounjaro vem “de fora” e é o mesmo usado por clientes e familiares.
Durante a apuração, a reportagem ouviu relatos semelhantes entre diferentes bancas. A maioria dos vendedores repete a mesma história: o produto seria “importado” por conhecidos e de “total confiança”. O argumento é usado como selo de garantia para um negócio que, na prática, ocorre sem qualquer fiscalização.
Dessa forma, os comerciantes conversam sobre o Mounjaro em meio a negociações de eletrônicos, sem demonstrar preocupação. O produto é oferecido em meio a capinhas de celular, cabos e fones, como mais uma mercadoria de alto valor agregado.
Regulamentação ignorada
O Mounjaro (tirzepatida), produzido pela farmacêutica Eli Lilly, foi aprovado pela Anvisa em setembro de 2023, inicialmente para o tratamento de diabetes tipo 2. Em junho de 2025, a agência ampliou a indicação para o controle de peso em adultos com obesidade ou sobrepeso, mas impôs regras rígidas de prescrição.
Desde 23 de junho de 2025, a venda do medicamento só pode ocorrer com retenção da receita médica em farmácias devidamente autorizadas, conforme a Instrução Normativa nº 360/2025.
A medida busca evitar o uso indevido e os riscos da automedicação, exigência que, na Feira dos Importados, é completamente ignorada.







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